sexta-feira, 7 de outubro de 2011

(Cont)-Embarcações Lagunares II Parte -Bateiras

Q. – Não seria de fazer um plano museológico, integrado, dada a riqueza do historial destas gentes(?) e da região? (pergunta um leitor).

Estamos plenamente de acordo. E até, já em tempos, perante uma Comissão qualquer,encabeçada pela UA, espusémos a nossa opinião.

Pólo 1 – Museu da Ria - Criado no espaço circundante ao esteirinho da Malhada, ocupando a marinha adjacente, para o museu do Sal. Arranjo de espaço e pavilhão para as artes. Embarcações no seu elemento natural. Incluiria um pavilhão para o traje.

Pólo 2- O actual MMI, fixado na pesca do Bacalhau, acrescentaria as embarcações de cabotagem (iates e outros),e a modelação naval.

Pólo 3- Museu da Xávega : a implantar na Costa Nova, integrando um Armazém de Salga, artes, equipamentos e utensílios.

Pólo 4 – Arte : Integraria o Museu da Fábrica da Vista Alegre.

Pólo 5 – Estação Arqueológica (situado à saída da ponte do Canal de Mira).

Este plano tem um ponto chave: a interligação entre Pólos museológicos poderia ser feita através da Laguna, o que dinamizaria o roteiro turístico.A ronda dos diversos Museus poderia ser oferecida como a «Rota dos Museus»,  por água, porquanto todos os pólos poderiam ser acedidos através da Ria (excepto o actual MMI, que está a 500 da Ria, mas de fácil acesso complementar, combinado).

Conclusão: repetimos este é apenas o guião de um novo trabalho, aproveitando sugestões e duvidas levantadas pelos amáveis leitores.

E para que fique claro: procurámos responder, sem intenção de criticar quem quer que seja.

Mesmo aqueles que parecem surpreendidos com algumas das nossas afirmações ,ou convicções, sabem que não é assim. Estes elementos, logo que esboçados, foram antecipadamente cedidos, mostrados, e comentados. Por isso nada têm de polémicos. Opiniões há muito conhecidas e frontalmente expostas.

SF



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

(Cont)  - Embarcações Lagunares II Parte -Bateiras



Questões que se prendem com a Sala da Ria no MMI.


Um leitor censura asperamente o «saguão»,que considera ser a Sala da Ria,no MMI, com embarcações colocadas sem sentido nem lógica, umas quase postas sobre outras.

Eu concordo no essencial,com algumas das suas criticas(de que há muito venho fazendo eco).
Aquela Sala (arquitectura e disposição) é intolerável e não dignifica a imagem do MMI. A dimensão está totalmente desadequada, impedindo uma boa mostra das embarcações. Pouco digna da história lagunar.

E quanto às classificações creio que muito haveria a fazer:

Como acima dissemos o nome de «bateira erveira de Canelas» deveria ser corrigido (unicamente e só) para «matola».O «matola» encheu os canais dos rios, Boco e Mira(dada a pequena altura da bica que lhe permitia passar sob as pontes da Calle da Vila, depois Juncal Ancho, e  logo após ponte de Água-Fria(rio Boco).E também das «Duas Águas», e mais além, da Vagueira, para atingir o Areão. Justificava-se assim plenamente estar lá, em vez da «erveira de Canelas», de todo afastada de Ílhavo. Também nos parece que o «chinchorro» deveria, antes, ser substituído pela «labrega».O «chinchorro» é de outras águas ,enquanto a «labrega» povoou todo o canal de Mira, Malhada, Gaf. Nazaré etc. A última das «labregas» da Ria de Aveiro, está aqui a dois passos…a desfazer-se....porque não recuperá-la?

E já que estamos com a mão na massa diremos que a «bateira de passeio» não diz nada. Não há este tipo(?).Há sim «caçadeira» -que é o que a bateira Namy é. Utilizada no passeio? Sim, mas isso não é um tipo, é uma utilização especial. «Caçadeira utilizada no passeio»,sim! «Caçadeira de passeio»,não!


Mas na verdade o pior é a total desadequação da sala à mostra pretendida. E de momento não vejo possibilidade de alterar a situação.

Claro que nesta Sala, talvez tivesse sido possivel utilizar uma «mistura» de novas técnicas para exposição deste tipo de Embarcações, de média dimensão.«Achapá-las» de qualquer modo,não creio que tenha sido a melhor solução.
Mas isso é outra questão.



Exp-Um desastre

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Embarcações Lagunares -II PARTE - BATEIRAS

2-3 Outras


É perfeitamente entendível que todas as bateiras, poderiam, numa ou outra ocasião, ser utilizadas para apanha e transporte de ervagens, como nos sugere a foto abaixo («caçadeira»).


                                                                 «caçadeira» nas ervagens



Contudo houve tipos de embarcações específicas para tal utilização:

2--3-1 – A Chata ou Patacha.

Embarcação muito simples, rudimentar, provavelmente das primeiras a atravessar os rios, muito antes da formação da laguna. De extremidades aguçadas, fusiforme, com uma bancada a meio que fixava a curvatura da tábua do costado, era movida exclusivamente à vara. Servia especificamente para travessia de rios ou na pateira. A sua utilização desceu até Canelas, Salreu e arredores.



As suas características são muito variáveis, mas podemos referir como tamanho mais utilizado, o seguinte:

comp. 4,40 m(muito variável)


pontal -0,30m ( ‘’ )


boca – 1,40 m ( ‘’ )


cavernas – 9 a 11.


deslocação – cerca de 400 Kg.



                                                           Um  «chata»


2-3-2 – A«ladra»
Trata-se de uma pequena bateira semelhante ao tipo esguicha, de bicas dobradas para o interior, proa e ré similares, sem castelo de proa, movendo-se exclusivamente à vara, tendo todo o exterior embreado.

Era executada em madeira muito fina e leve, o que lhe permitia uma excelente mobilidade.

Vinha rebocada pelos moliceiros «matolas». E de noite, silenciosamente, à vara, com ela faziam-se surtidas às terras ribeirinhas.

Tinha uma boca excessiva, por isso parecendo muito gorda, comparada com a finura dos bicos da proa e ré. Mestre Pires recorda que, rapazito, veio varias vezes reparar algumas, à Malhada, em Ílhavo.

                                                                         A«Ladra»
Destinava-se ao transporte de ervagens e animais. Dada a sua côr negra, e ao facto de apenas se mover muito silenciosamente, à vara, era usada para fins furtivos. Daí advém a sua designação.

Oriunda do Canal de Mira, chegou a ser utilizada no Canal de Ovar, esporadicamente, ou nos veiros estreitos a recolher ervagens.

Características

comp – 4,25 m


boca – 1,25 m


pontal – 0,40 m


nº de cavernas – 8








                                                                       Interior da «ladra»

As linhas muito simples e empíricas, rústicas, quase artesanais, parecem querer significar que este tipo de bateira, derivada (?) da «esguicha», é muito provável, ser, também, uma das embarcações pioneiras lagunares.

2-4 – A «bateira marinhoa»

Aparece citada por Lamy Laranjeira. Procurámos elucidar-nos, mas certo é que ninguém se recorda ou consegue identificar a referida embarcação..

Ora lendo atentamente José de Castro deparamo-nos com uma foto que classifica como «marinhoa».

Vejamos a mesma

:

                                                            «marinhoa» grav. nº 163 ( seg.José de Castro)

Lamy Laranjeira esboça mesmo um alçado. A curvatura da roda da popa (ré na gíria) foge totalmente ás linhas lagunares.





Podemos no mínimo dizer: a embarcação de Castro é uma «caçadeira» (7m?). Isso é evidente. A de Lamy é uma embarcação de «bica»(sem castelo?).

A haver um tipo de embarcação erveira, designada por «marinhoa», não será difícil concluir que ela terá nascido no que habitualmente se chama a zona das marinhas, entre Estarreja e Murtosa. Terá sido(?)pois, uma bateira local (não um tipo).

Preferimos deixar em aberto e esclarecer ainda melhor, tentar encontrar referências.

Isto é pois o que numa visita muita rápida, tipo guião de algo que talvez mereça ser trabalhado, nos apraz de momento referir. Pode assim ser corrigido ou alterado, o que fomos repentinamente obrigados a elaborar, se assim o entendermos,produto de uma informação complementar.

(CONT)

domingo, 2 de outubro de 2011

Embarcações Lagunares II Parte-Bateiras

2-2-3 –Erveiras


Dentro destras temos:
2-2-3-1 – A «mercantela»


2-2-3-2 – A «bateira erveira de Canelas»


2-2-3-3 – A «patacha»




             2-2-3-1 – A «mercantela»

Tratava-se de uma bateira de linhas praticamente decalcadas do «mercantel», de menor deslocamento:

comp-13 a 14,40 m


boca-2,60 m


nº de cavernas 23/24


desloc. – 1.5 ton.


Diferia basicamente do «mercantel»,e por isso não deveria ser enquadrada nas barcas, por não ter «bordo» nem «draga» apertadas no extremo do braço da caverna. Na «mercantela» a «draga» é apenas uma «sarreta» como existente nas bateiras (passando por baixo do traste). Assim quando se deslocava à vara, tinha duas tábuas, que montavam interiormente chamada «tábuas das tostes de correr», permitindo à tripulação caminhar ao longo da borda, empurrando a vara. Carregava 1,5 ton. e movia-se à vela envergando uma vela quadrangular(do tipo do mercantel) com 15 a 20 m2.



                                                                    Bateira «mercantela»

Era muito utilizada para transporte de peixe e especialmente, escasso. E também nas ervagens. Sobre esta bateira recolhi o depoimento que chegou a ser utilizada na boca da barra na apanha de caranguejo, utilizando o sarilho.

Já no Séc.XX foram construídas, equipadas com draga e bordo(podendo assim ser designadas por «barcas mercantelas»).


Uma das suas utilizações mais referenciada era na apanha do berbigão (e outros bivalves). Para isso era equipada com um sarilho a vante conforme se pode apreciar no modelo:



                                                         Bateira «mercantela» -berbigoeira.

Julgamos necessário clarificar duas informações dadas por D.José de Castro (e depois reproduzidas até à exaustão por vários autores) : a «mercantela» aparelhava com o leme tipo «mercantel», e não do tipo «moliceiro», como D. José mostra . E mais: não conseguimos encontrar ninguém (construtores e velhos tripulantes) que admitissem a mesma estar equipada com remos. Movia-se à vara ou à vela.

2-2-3-2 – A «bateira erveira» de Canelas



D. José referiu um certa embarcação como sendo a bateira erveira de Canelas. Logo todos copiaram a referência. E até no Museu de Ílhavo lá está a «famigerada» bateira erveira de Canelas.




Não, não é nada disso. O que está no Museu é um Matola ( perfeito ).É pois uma «barca».

E a verdade é que a primitiva «bateira erveira» de Canelas existiu. Exibo-a na p.124 do Livro «Embarcações Que Tiveram Berço na Laguna».


Resultante de uma investigação cuidada, ouvindo o próprio construtor Manuel Pires, filho de um outro construtor, Arnaldo Pires, aquele clarifica o que sempre admitimos: a «bateira erveira» é a mostrada na fig abaixo de que fez muitas. Eram mais baratas que os «matolas», elucida.

A embarcação que levaram para o Museu era uma barca, um «Matola», mais exactamente, como nos refere, confirmando o que já sabíamos. E explica o mestre que chegou a avisar do erro, mas (disse) ….tinham lido em qualquer parte.

Ora é profundamente estranho, para não dizer outra coisa, que sendo o «matola» uma embarcação do Canal de Mira e do Canal do Boco, estes sim ligados às gentes de Ílhavo, a barca exposta no Museu esteja com o nome incorrecto (levando a confundir «bateira erveira de Canelas» com o «matola». Erro que urge corrigir a nosso ver, pois compete-nos guardar correctamente o nosso património, próximo. Adiante…




                                                       «matola» construído em Canelas





                                                         Pormenor do castelo embreado e coberto



Visitamos no Seixo de Mira, o Mestre Gadelha, e confirmámos: o «matola» de Canelas é igual aos que faz.

As suas características são

Matola de 9,30m


comp. – 9,30m


boca-2,00 m


pontal – 0,60m


cavernas - 14 + 1º e 2ºgolfião de ré –(0,12x0,06)


deslocação -1,5 ton.

draga - 0,10x0.06


bordo - 0,12x0,055


tem entremesa e cagarete


leme tipo Moliceiro com «chança»

o varão da escota(quando o tem ) é fixado na 1ª caverna.

Totalmente embreado .

Mas fizeram-se «matolas maiores em Mira,diz-nos o mestre Gadelha:

Matola 13 m


comp. –13m


boca -2,60m


nº cavernas –16/17

A construção deste tipo de barca foi trazida do Seixo de Mira. O Pai Arnaldo trabalhou com os mestres Rato e Garrido (Salreu).

As únicas diferenças que encontrámos entre o Matola de Canelas e o do Seixo,reside no facto de o «Matola de Canelas» ter o primeiro golfião de ré saliente do bordo. E ainda o facto de estas embarcações serem cobertas no castelo e na parte superior do bordo e draga, por casca de arroz espalhada sobre o breu. E ainda decorada na bica de proa(talvez esta um pouco mais elegante, geito de mestre que aprendeu nas estaleiros de construtores de moliceiros do norte da laguna) por círculos cheios da mesma casca.


                                               Mestre Pires junto do «matola» (reparar no golfião saído da borda)


Entretanto, com o Mestre Pires, confirmámos a verdadeira «bateira erveira» de Canelas, cujo modelo reproduzimos na imagem abaixo .



 A verdadeira «bateira erveira» de Canelas

De menor capacidade (cerca 1 Ton. de deslocamento), é mais barata, tendo as seguintes características

comp – variável entre 9,30m e 10,15 m


boca – 1,90 m


nº cavernas –12/14


(Cont)