Embarcações Lagunares II Parte-Bateiras
2-2-3 –Erveiras
Dentro destras temos:
2
-2-3-1 – A «mercantela»
2-2-3-2 – A «bateira erveira de Canelas»
2-2-3-3 – A «patacha»
2-2-3-1 – A «mercantela»
Tratava-se de uma bateira de linhas praticamente decalcadas do «mercantel», de menor deslocamento:
comp-13 a 14,40 m
boca-2,60 m
nº de cavernas 23/24
desloc. – 1.5 ton.
Diferia basicamente do «mercantel»,e por isso não deveria ser enquadrada nas barcas, por não ter «bordo» nem «draga» apertadas no extremo do braço da caverna. Na «mercantela» a «draga» é apenas uma «sarreta» como existente nas bateiras (passando por baixo do traste). Assim quando se deslocava à vara, tinha duas tábuas, que montavam interiormente chamada «tábuas das tostes de correr», permitindo à tripulação caminhar ao longo da borda, empurrando a vara. Carregava 1,5 ton. e movia-se à vela envergando uma vela quadrangular(do tipo do mercantel) com 15 a 20 m2.
Bateira «mercantela»
Era muito utilizada para transporte de peixe e especialmente, escasso. E também nas ervagens. Sobre esta bateira recolhi o depoimento que chegou a ser utilizada na boca da barra na apanha de caranguejo, utilizando o sarilho.
Já no Séc.XX foram construídas, equipadas com draga e bordo(podendo assim ser designadas por «barcas mercantelas»).
Uma das suas utilizações mais referenciada era na apanha do berbigão (e outros bivalves). Para isso era equipada com um sarilho a vante conforme se pode apreciar no modelo:
Bateira «mercantela» -berbigoeira.
Julgamos necessário clarificar duas informações dadas por D.José de Castro (e depois reproduzidas até à exaustão por vários autores) :
a «mercantela» aparelhava com o leme tipo «mercantel», e não do tipo «moliceiro», como D. José mostra . E mais: não conseguimos encontrar ninguém (construtores e velhos tripulantes) que admitissem a mesma estar equipada com remos. Movia-se à vara ou à vela.
2-2-3-2 – A «bateira erveira» de Canelas
D. José referiu um certa embarcação como sendo a bateira erveira de Canelas. Logo todos copiaram a referência. E até no Museu de Ílhavo lá está a «famigerada» bateira erveira de Canelas.
Não, não é nada disso. O que está no Museu é um
Matola ( perfeito ).É pois uma «barca».
E a verdade é que a primitiva «bateira erveira» de Canelas existiu. Exibo-a na p.124 do Livro
«Embarcações Que Tiveram Berço na Laguna».
Resultante de uma investigação cuidada, ouvindo o próprio construtor Manuel Pires, filho de um outro construtor, Arnaldo Pires, aquele clarifica o que sempre admitimos: a «bateira erveira» é a mostrada na fig abaixo de que fez muitas. Eram mais baratas que os «matolas», elucida.
A embarcação que levaram para o Museu era uma barca, um «Matola», mais exactamente, como nos refere, confirmando o que já sabíamos. E explica o mestre que chegou a avisar do erro, mas (disse) ….tinham lido em qualquer parte.
Ora é profundamente estranho, para não dizer outra coisa, que sendo o «matola» uma embarcação do Canal de Mira e do Canal do Boco, estes sim ligados às gentes de Ílhavo, a barca exposta no Museu esteja com o nome incorrecto (levando a confundir «bateira erveira de Canelas» com o «matola». Erro que urge corrigir a nosso ver, pois compete-nos guardar correctamente o nosso património, próximo. Adiante…
«matola» construído em Canelas
Pormenor do castelo embreado e coberto
Visitamos no Seixo de Mira, o
Mestre Gadelha, e confirmámos: o «matola» de Canelas é igual aos que faz.
As suas características são
Matola de 9,30m
comp. – 9,30m
boca-2,00 m
pontal – 0,60m
cavernas - 14 + 1º e 2ºgolfião de ré –(0,12x0,06)
deslocação -1,5 ton.
draga - 0,10x0.06
bordo - 0,12x0,055
tem entremesa e cagarete
leme tipo Moliceiro com «chança»
o varão da escota(quando o tem ) é fixado na 1ª caverna.
Totalmente embreado .
Mas fizeram-se «matolas maiores em Mira,diz-nos o mestre Gadelha:
Matola 13 m
comp. –13m
boca -2,60m
nº cavernas –16/17
A construção deste tipo de barca foi trazida do Seixo de Mira. O Pai Arnaldo trabalhou com os mestres Rato e Garrido (Salreu).
As únicas diferenças que encontrámos entre o Matola de Canelas e o do Seixo,reside no facto de o «Matola de Canelas» ter o primeiro golfião de ré saliente do bordo. E ainda o facto de estas embarcações serem cobertas no castelo e na parte superior do bordo e draga, por casca de arroz espalhada sobre o breu. E ainda decorada na bica de proa(talvez esta um pouco mais elegante, geito de mestre que aprendeu nas estaleiros de construtores de moliceiros do norte da laguna) por círculos cheios da mesma casca.
Mestre Pires junto do «matola» (reparar no golfião saído da borda)
Entretanto, com o Mestre Pires, confirmámos a verdadeira «bateira erveira» de Canelas, cujo modelo reproduzimos na imagem abaixo .
A verdadeira «bateira erveira» de Canelas
De menor capacidade (cerca 1 Ton. de deslocamento), é mais barata, tendo as seguintes características
comp – variável entre 9,30m e 10,15 m
boca – 1,90 m
nº cavernas –12/14
(Cont)